Os pastéis da rainha

“Freshly baked madam”, com esta frase, Carlos apela á curiosidade estática da senhora que mira a sua pequena montra de pastéis de nata ainda quentinhos e fumegantes. Esclarecedor, remata com um singular “just came out of the oven, they´re still warm”, acabados de sair do forno, estão ainda quentes. Passam-se assim as horas deste português há  5 anos no Reino Unido que se dedica, desde Julho, a mostrar nas feiras e nos muitos mercados ao ar livre que a Grâ-Bretanha, por costume abriga, uma das mais conhecidas especialidades da doçaria de Portugal – o pastel de nata.

Obriga-se a si próprio a um ritual onde mecaniza o tempo e disciplina as provas, a servi-los quentes e estaladiços. Mantê-los presos numa montra todo o dia retira-lhes todo o real prazer de sentir esta iguaria, fresca e morna, misto de um “crême brullée” prisioneiro de uma campânula de massa folhada estaladiça misturarem-se num sem fim de sensações ao mais exigente dos palatos.

Fá-los sair em cada fornada estratégica do seu forno de marca “infernus” directamente para as provas dos mais curiosos e mesmo (re)conhecedores dos súbditos da rainha. Muito do seu público fica maravilhado por encontrar em ruas tão distantes esta delícia portuguesa.

Muitos destes, habituados a usufruírem dos intermináveis verões de Portugal nas suas férias, tomaram gosto a este produto tão icónico que tem a sua aura máxima em Belém, conceito que Carlos tenta implementar em Inglaterra. Os que não conhecem, Carlos diligente e com o seu melhor inglês conta alguns pormenores desta misteriosa receita guardada por monges ao longo de 400 anos, cultura e gastronomia expostas num altar de orgulho com que lança um certo misticismo a cada dentada dada.

Chegou a estas paragens em 2007, oriundo de S. Pedro do Estoril, onde passou toda a sua vida, bem conservado nos seus 46 anos, tem vendido de tudo. No reino Unido, Caco, como é conhecido na sua terra natal, já fez quase de tudo, desde apanhar fruta ou espargos, vender roupa peruana de lã de alpaca também em mercados para um chileno que rapidamente lhe reconheceu talento para a venda directa e o contacto com o público.

Falando correctamente Inglês e Francês, Caco tem tudo o que é preciso para a ancestral arte de comunicar, dizer a palavra certa no momento chave e assim, vender. Com algumas libras que foi juntando, lançou-se totalmente sozinho na aventura de vender pastéis de nata saídos do forno directos ao cliente. Este, reconhece a qualidade e a frescura, mas acima de tudo atravessa a experiência de o provar “comme il faut”. A qualidade é fundamental para o sucesso, reconhece, “é o futuro, já chega de chinezisses”

Os testes estão em progresso. Desde Julho que faz feiras com os seus “natas” em cidades como York, Aberdeen, Liverpool, Sheffield, Inverness, Newcastle, Edimburgh, Norwich e tantas outras. Com sucesso ou com menos sucesso, obtém um verdadeiro “estudo de mercado”, as respostas que são necessárias ao desenvolvimento de qualquer projecto, se o produto foi bem aceite e se o saldo no final é positivo.

José Baptista Loureiro

José Baptista Loureiro

Nunca soube o que queria ser, e ainda hoje não o descobri . Caí cedo nisto de aceitar as coisas como são para desespero dos meus pais que me “obrigaram” a estudar para ser doutor quando o que me fascinava era a vida dos camionistas de pesados.
Assim, tenho sido de tudo, e nunca dei tréguas à monotonia, adoro o risco e o desconhecido, o acto de sair e ver o que sai do sonho para o concreto e sempre me fascinou a vida de traveller e aventureiro (que aliás tive durante anos e anos).
Talvez por esse facto, depois de ter sido tanta coisa, agora sou antes de tudo, pai de 2 crianças.