Para ti, que és tão fútil

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Não raras são as vezes em que ouço pessoas acusarem outrem de ser fútil, de forma tão mesquinha que o “ser fútil” se torna, momentaneamente, no pior defeito que essa pessoa poderia ter. De todos os defeitos possíveis, ela tinha logo que ser fútil.

Eu tenho para mim que é da boca dessas pessoas que sai a verdadeira futilidade, tão só por se preocuparem, repreenderem e julgarem o estilo de vida que alguém assume, ou, melhor dizendo, de pensarem que é esse o estilo de vida quando na verdade nada sabem sobre a jornada da pessoa a que se referem.

Para muita gente, a verdadeira inteligência reside em bosquejar alguns pensamentos “profundos” sobre o mundo. O mundo que vai tão mal, os valores que estão em crise, a economia que está em crise, a crise que está em crise (!), os seres humanos que estão, efectivamente, todos, e irremediavelmente, em crise, provavelmente desde que se acharam vivos.

O que elas não sabem é que têm tanto de profundas como uma poça de água e nem fúteis chegam a ser de tão vazias que são.

Acho mais. Eu acho muito, adoro achar alguma coisa sobre tudo e acho que o próprio conceito que as pessoas têm sobre a palavra “futilidade” é, em si mesmo, fútil. Porquê? Vejamos.

Quem é fútil é quem compra roupa, quem se desassossega com a aparência, quem gasta dinheiro em viagens e em estadias em bons hotéis. Se, você, que está a ler, faz isto tudo, então, fique sabendo que é fútil e que nada de interessante se pode tirar de uma conversa consigo. Errado.

Vendo ao contrário, não se ser fútil é ler e comentar notícias todos os dias, ouvir músicas cujos nomes ninguém conhece, enumerar de cor o nome dos que foram prémio Nobel – mesmo que de nobre tenha muito pouco o nosso carácter -, elaborar pensamentos intrincados sobre um ovo estrelado, que é o mesmo que dizer, sobre nada, ler um livro com caderno ao lado para apontar as palavras mais complexas e aplicá-las nas conversas mais banais só porque sim, porque vai, naturalmente, causar impressão – e dizem vocês que não são fúteis.

Continuando a achar.

Acho que ser-se fútil é pensar que quem é fútil não pode não ser fútil. Eu explico-me. Se acabo de comprar uma saia na minha loja preferida, nada me impede, no momento a seguir, de me sentar num café a ler o jornal. Se, porventura, decido pousar durante quinze dias num hotel de cinco estrelas, nada me impede de, durante a estadia, ler um bom livro e interpretá-lo sem fazer questão que alguém se impressione com as ideias que sobre ele teço.

O que vocês não sabem, oh pessoas pardacentas, dissimuladas e vazias, é que, na vossa vida, podem ter o melhor de dois mundos que é o mesmo que dizer, podem desenhar o vosso próprio estilo de vida e a vossa própria vida com estilo. Eu, que arranjo as unhas, que gosto de ir às compras, que me delicio com imagens bonitas, que vou à esteticista, que adoro passar uma tarde no cabeleireiro, eu que cometo estes pecados todos, vivo muito mais feliz que vocês que, na vossa conversa de café, desdenham da estética mas de ética, têm muito pouco. Sugiro, porque vocês não sabem, sugiro, porque vocês ainda não repararam, que guardem no bolso o dedo que estão a apontar. E, se dentro do bolso, tiverem uns trocos, vão comprar um gelado. O dia vai ser mais alegre.

A Sílvia Cardoso escreve o seu próprio Blog: Laissez Moi.