Não fazer nada. Sem culpas

By Divine Shape
In better me
Oct 1st, 2013
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Menos de uma semana. Foi quanto tempo consegui estar sem lavar a roupa. Podia ter sido um teste, mas não foi. E a máquina também não está avariada. O ralo que existe na marquise e que, aparentemente, devia escoar a água da máquina para a canalização, sim. A meio da lavagem, lá vem a água para cima. Não uses a máquina, disse-me ele, depois de ter passado uma destas madrugadas a recolher a água com uma esfregona. Ninguém pode.  Depois arranjo. Pois, faltou isso, as ferramentas não estão em casa.
A roupa foi-se acumulando, já era um monte jeitoso. Anteontem não aguentei mais.Preferi o trabalho de limpar a água do que o martírio de olhar para o monte de roupa suja. Menos de uma semana foi quanto aguentei se lavar roupa. Podia ter sido menos, se o miúdo estivesse em casa. E talvez pudesse ter sido mais, se estivesse sozinha em casa. Ou não: um dos motivos que me levou a ligar a coisa foram umas calças verdes e uma camisola branca e verde que fica lindamente com elas que me estavam a fazer falta mas que acabei por não usar porque entretanto o tempo aqueceu e quando é assim eu sou mais adepta de vestidos.
Talvez pudesse, portanto, esperar mais um pouco, não fosse esta coisa de achar (de acharmos todos, digo eu) que temos de ir todos os dias com roupa diferente para o trabalho. Já me deixei disso quando estou de férias, sobretudo quando o destino é a praia e tenho de fazer malas para lá chegar. Umas leggins, um casaco de ganga, um casaco de malha, dois ou três vestidos, umas calças para o caso de apanhar algum dia mesmo frio, umas sapatilhas, umas sandálias. Já está. E mesmo assim sobra. Se vou de férias para a praia é lá que passo a maior parte do tempo e não faço questão nenhuma de mudar de indumentária todos os dias. Sou capaz, aliás, de fazer uma temporada de praia sempre com o mesmo vestido. Para mim férias e praia são sinónimo de despreocupação. Escolher o que vestir é menos uma coisa em que tenho de pensar de manhã, antes de me besuntar a mim e ao miúdo com protetor solar, preparar o lanche e correr para o mar (ele vai muito mais depressa do que eu).
Voltando à máquina, no início foi bom: a criança fora, de férias com a avó, eu a trabalhar e com menos umas quantas coisas para fazer depois de chegar a casa. Sim, porque o melhor de não lavar roupa foi não ter de a estender, apanhar e passar a ferro.  Estar sem o miúdo é que não foi assim tão diferente. Tive saudades, muitas, mas constatei que o que me rouba tempo não é ele, são as tarefas domésticas. Claro que pude adormecer no sofá sem me importar com as horas e com o jantar, claro que o jantar foi uma coisa qualquer para não dar trabalho, mas não fiz metade das coisas que imaginei poder fazer: ler um livro, ir para uma esplanada, ir aos saldos, visitar lojas só porque sim, ir ao cinema, etc. Podia tê-las feito, mas para correria já bastam os dias “normais”, preferi descansar que é disso que estou mesmo a precisar.
Se a minha mãe visse não teria sido bom. Ela teve empregada doméstica, eu não. Mas isso não lhe retirou um bichinho (vício? obsessão?) por ter tudo direitinho e limpinho e arrumadinho. Eu não tenho. Já tive, percebi o desperdício de tempo, já não tenho e quando me apanha tento assobiar para o lado o mais que puder. Mesmo sem empregada e estando de férias, ela aspira, passa a esfregona, limpa o pó e mais não sei quantas mil coisas numa casa que é o triplo da minha, ou mais. Eu só arregaço as mangas quando já estamos para lá do caótico. E não, não me importo que pensem que sou uma preguiçosa, uma desleixada, uma péssima dona-de-casa. Antes o primor no cuidado da casa fazia parte das mulheres, hoje, tenham paciência, só quem tem empregada ou não trabalha fora de casa é que consegue ser assim sem se culpabilizar e morrer de remorsos. Não trabalhar fora de casa está fora de hipótese para mim, ter empregada também, portanto resta-me lidar com os afazeres domésticos sem culpas, que a minha casa não é um museu e o tempo que lá passo também deve ser tempo de descanso.

Divine Shape

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Quis ser arquiteta, mas era demasiada geometria para a minha cabeça. O que eu devia ter sido era designer, mas na altura não sabia que isso existia. Tornei-me jornalista há 11 anos, porque gosto de escrever. Gosto das palavras. Também gosto de moda e de design, de coisas diferentes e originais, de descobrir projetos, pessoas e coisas bonitas. Aos 34 anos de idade e três de maternidade, cismei que devia fazer alguma coisa com isso. Criei o projeto Divine Shape em setembro de 2011. Avancei sem saber para onde ia, e estou a adorar. Divine Shape é uma publicação independente on-line, dedicada à divulgação de temas contemporâneos relacionados com o design e a moda.

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