Diz-me o que lês

Há quem diga que se conhece as pessoas pelo aperto de mão. Outros defendem que é pelos olhos. Há ainda quem diga que é nas dificuldades, ao que outros, mais cínicos, afirmam que é nos momentos felizes. Há quem avalie as mulheres pelos sapatos e quem escolha os homens pelas unhas. Não acredito em nada disto.
Uma pessoa conhece-se pelas estantes. Mais que pelos discos e cds; melhor que pelos cremes escondidos na casa-de-banho. Assim que chegamos a uma casa que não conhecemos, uma das melhores formas de meter conversa é pelos livros na biblioteca. Vemos as lombadas, umas mais partidas e outras nunca abertas. Vemos os títulos e as editoras e sabemos imediatamente que tipo de pessoa temos à frente.
Só tem clássicos que todos conhecemos de nome mas nunca lemos além da terceira página? É um exibicionista. Tem imensos livros enormes, tipo cofee-table, sobre os mais diversos assuntos? É um esteta (e provavelmente algo superficial também). Tem todas as edições na versão original? É um mentiroso; não pode saber falar russo E japonês. Tem imensos livros de arte e fotografia? É um estudioso. Tem imensos livros de arquitectura sem ser arquitecto? É o George Costanza. Tem uma estante inteira de auto-ajuda? É melhor dizer que se esqueceu de trancar o carro e sair já. Tem todos os tops da Fnac? É alguém com pouco critério. Tem imensos autores escandinavos? É bom que tenha avisado alguém para onde foi. Tem edições encadernadas do José Rodrigues dos Santos? É alguém ingénuo.

É muito fácil. Basta juntar todos os preconceitos que utilizamos todos os dias em relação à aparência e aplicá-los de forma indiscriminada aos livros. Julgar as pessoas, literalmente, pelas capas. Parece redutor mas poupa-nos muito trabalho. Edições de Kafka que nunca foram abertas são toleráveis. Edições de Nietzche cheias de marcador amarelo são um bocadinho assustadoras. Exemplares do Código Civil bem alinhados dizem que aquela pessoa só leu na faculdade.
Já pensaram no que a vossa estante diz?

 

Anita

Ana Simões

Copywriter profissional que brinca demasiado com os efeitos do photobooth quando devia estar a escrever headlines. Detesto ver telejornais, mas adoro gritar com a televisão quando ouço alguma coisa que não me agrada. Nunca vou usar o novo acordo ortográfico de livre vontade e vou usar sempre riscas horizontais, apesar de não ter estrutura para isso. Quando era pequena, queria ser jogadora de futebol/ piloto de aviões / cavaleira do asfalto, o que só prova que os meus pais estavam à espera de um rapaz. Posso ser encontrada a dormir a sesta enrolada numa toalha amarela no Guincho.